O SPDA (Sistema de Proteção Contra Descargas Atmosféricas), popularmente conhecido como “para-raios”, é um sistema de engenharia projetado para proteger edificações contra os impactos e danos das descargas atmosféricas.
A atualização da ABNT NBR 5419, publicada em 10 de março de 2026, representa a revisão mais importante da norma desde a histórica mudança de 2015. O objetivo central foi alinhar o mercado brasileiro às normativas internacionais mais modernas (como a série IEC 62305), corrigir distorções em cálculos de engenharia e atualizar os dados estatísticos de densidade de raios no país.
Continue a leitura para entender o funcionamento do SPDA e as principais mudanças trazidas pela NBR 5419!
Os componentes de um SPDA
É comum acreditar que o para-raios é apenas a “antena” instalada no topo de um prédio. Na realidade, trata-se de uma estrutura muito mais complexa, composta por múltiplos sistemas integrados para a proteção do patrimônio e das pessoas.
Um SPDA típico é dividido em sistema externo e interno, englobando os seguintes componentes:
- Captores: estruturas posicionadas na parte superior da edificação (mastros, hastes, cabos ou malhas) responsáveis por receber o impacto direto do raio.
- Condutores de descida: caminhos compostos por cabos ou barras metálicas que conduzem a corrente do raio, do captor até o solo.
- Sistema de aterramento: conjunto de eletrodos e hastes enterrados no solo que guiam e distribuem a corrente da descarga atmosférica na terra com segurança.
- Barramento de Equipotencialização Principal (BEP): conexões e barramentos que interligam os sistemas externo e interno. Eles equalizam o potencial entre as partes metálicas da estrutura e o sistema de aterramento, reduzindo drasticamente o risco de centelhamentos perigosos e choques elétricos.
- Dispositivos de Proteção contra Surtos (DPS): equipamentos instalados nos quadros elétricos que protegem continuamente as instalações e os eletroeletrônicos contra picos de tensão causados por surtos induzidos ou conduções da rede elétrica.
Em resumo: os captores interceptam o raio no topo da edificação, e os condutores de descida guiam essa energia até o subsistema de aterramento. Em paralelo, as medidas de equipotencialização e os DPS impedem que a sobretensão queime aparelhos e cause acidentes graves nas instalações internas.

Normas e obrigações do SPDA no Brasil
O projeto, a instalação e a manutenção do SPDA devem seguir rigorosamente as diretrizes da ABNT NBR 5419. A norma apresenta considerações fundamentais sobre gerenciamento de risco, dimensionamento técnico, inspeções e rotinas de manutenção.
Avaliação e projeção do SPDA (atualizações em 2026)
Com a atualização da norma em 2026, a metodologia de cálculo foi refinada. Além do gerenciamento de risco tradicional, agora é dada uma atenção rigorosa à frequência de danos: o cálculo do número anual estimado de eventos prejudiciais causados por descargas nas proximidades de sistemas eletroeletrônicos (como TI, automação e telecomunicações).
Outro ponto de destaque foi a inclusão explícita de infraestruturas modernas entre as características estruturais que exigem o dimensionamento do SPDA, tais como:
- Sistemas fotovoltaicos (energia solar);
- Sistemas de Alimentação para Veículos Elétricos (SAVE);
- Instalações de antenas de telefonia móvel e redes 5G/6G.
O resultado do cálculo de gerenciamento de risco, combinado com as características físicas da propriedade, é o que determina legalmente se a instalação do SPDA é obrigatória e qual será o seu Nível de Proteção (I, II, III ou IV).
Locais que exigem a instalação de SPDA
Mesmo se o cálculo de risco der baixo, o Corpo de Bombeiros de cada estado (por meio do Código de Segurança Contra Incêndio e Pânico) e o Ministério do Trabalho (pela NR-10) costumam exigir o SPDA de forma mandatória para a concessão de alvarás (AVCB) em certas tipologias:
- Condomínios: edificações residenciais ou comerciais de múltiplos pavimentos ou com grandes áreas expostas.
- Data centers e centrais de telecomunicações: ambientes com alta densidade de automação e ativos de TI críticos.
- Locais de reunião de público: igrejas, teatros, clubes, estádios, auditórios, shoppings e escolas.
- Serviços de saúde e críticos: hospitais, clínicas, postos de saúde e centrais de atendimento de emergência.
- Indústrias e depósitos: galpões logísticos e fábricas (especialmente aquelas que operam com produtos químicos, inflamáveis ou atmosferas explosivas).
- Estruturas isoladas ou elevadas: torres de comunicação, chaminés industriais, caixas d’água elevadas e antenas localizadas em topos de morros.
Quem pode instalar um SPDA?
A instalação de um para-raios deve ser realizada exclusivamente por profissionais legalmente habilitados pelo CREA (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia).
A responsabilidade técnica sobre o projeto, execução e laudos cabe a engenheiros eletricistas (ou profissionais com atribuições normativas específicas da área elétrica concedidas pelo sistema CONFEA/CREA). Cada serviço exige, obrigatoriamente, a emissão da ART (Anotação de Responsabilidade Técnica).
A atualização de 2026 da NBR 5419 trouxe exigências ainda mais claras sobre materiais e boas práticas de instalação. Logo, os cuidados necessários com esses detalhes devem estar claros para a equipe responsável, evitando riscos severos de danos estruturais e acidentes em caso de descargas.
Inspeção e manutenção de para-raios
Para que o sistema continue operacional e exerça sua função de proteção, as rotinas de inspeção devem ser mantidas rigorosamente em dia. A manutenção preventiva envolve:
- Inspeção visual periódica: para avaliar o estado de conservação dos componentes, identificar oxidações, cabos rompidos ou furtados;
- Ensaios de continuidade elétrica: testes técnicos para garantir que as conexões entre captores, descidas e aterramento mantêm baixa resistência;
- Substituição e manutenção corretiva: correção imediata de qualquer dano, corrosão ou desconexão identificada.
Importante: cada avaliação técnica deve ser documentada em um Laudo Técnico de SPDA. Esse documento atesta a conformidade do sistema perante a norma vigente, sendo indispensável para a gestão de riscos, vistorias dos Bombeiros e auditorias de seguradoras.
- Saiba mais: Manutenção dos para-raios deve estar em dia
Cronograma de manutenção do SPDA
Cada tipo de verificação possui uma periodicidade obrigatória. Você pode utilizar o Módulo de Manutenções do aplicativo BRCondos para organizar o cronograma da sua edificação:
| Tipo de Inspeção | Frequência | Aplicação/Local | Tarefa/Foco |
| Visual | A cada 6 meses | Todas as edificações, sem exceção. | Checagem rápida de cabos partidos, mastros tortos, conexões soltas por vento ou vandalismo, e oxidação severa. |
| Completa (Risco Alto) | A cada 1 ano | Postos de combustível, indústrias químicas ou inflamáveis, hospitais, serviços essenciais e regiões litorâneas. | Testes de continuidade, medições de aterramento, conferência rigorosa de todos os DPS e emissão de laudo técnico. |
| Completa (Padrão) | A cada 3 anos | Prédios residenciais (condomínios), edifícios comerciais e indústrias comuns. | Mesmos testes detalhados da inspeção anual e renovação do laudo técnico do sistema. |
| Extraordinária | Imediata | Qualquer edificação após reformas na estrutura, alterações no teto (ex: placas solares) ou queda direta de raio. | Avaliação de danos específicos, substituição de DPS queimados e garantia de que o sistema continua seguro após o evento. |
Nota: O Corpo de Bombeiros de determinados estados pode exigir a apresentação do laudo completo anualmente para a renovação do AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros). Consulte sempre a Instrução Técnica (IT) vigente em sua região.
Mudanças importantes da NBR 5419 em 2026
As principais evoluções da norma dividem-se entre as esferas técnica, metodológica e de materiais. Confira os destaques da versão de 2026:
- Sistemas de Alerta de Tempestades (SWS): a utilização de detectores de tempestades integrados agora pode ser considerada no gerenciamento de risco, ajudando a mitigar riscos em áreas operacionais abertas.
- Novos materiais regulamentados: introdução de tabelas de equivalência de bitolas para cabos bimetálicos (como o aço acobreado), reduzindo a dependência do cobre tradicional — material altamente visado por furtos e de custo elevado.
- Cálculos de distância de segurança refinados: novas fórmulas evitam o superdimensionamento de estruturas de separação, mantendo a precisão técnica e reduzindo custos de projeto.
- Dados de raios atualizados por município: a base de dados de densidade de descargas atmosféricas foi revisada geograficamente, considerando os impactos das mudanças climáticas recentes no Brasil.
- Plano Documentado de Inspeção e Manutenção: a gestão do sistema passa a exigir um plano dinâmico e documentado de ciclo de vida do SPDA, deixando de ser tratado apenas como uma estrutura estática instalada na entrega da obra.
- Áreas de explosão: regras muito mais rígidas para indústrias químicas, postos e depósitos de inflamáveis.
- Rigor na coordenação de DPS: maior rigor técnico no cascateamento e coordenação entre os DPS de Classe I (quadro principal/entrada) e Classe II (quadros de distribuição internos) para proteger eletroeletrônicos sensíveis.
Com isso, novas construções ou reformas estruturais (retrofits) devem ser projetadas integralmente sob as regras atualizadas de 2026.

Os riscos de não ter um SPDA bem dimensionado
A ausência ou a inadequação de um SPDA gera consequências severas. Quando uma descarga atinge uma edificação desprotegida, a corrente elétrica busca caminhos imprevisíveis até o solo, criando cenários de alto risco:
- Risco à vida e à integridade física: a proximidade ou o toque em paredes e estruturas metálicas no momento do impacto pode causar choques por tensão de passo ou de toque, resultando em queimaduras graves, paradas cardíacas e óbitos.
- Riscos patrimoniais e danos estruturais: com temperaturas que ultrapassam os 20.000ºC (≈4x mais quente que o Sol), o raio provoca incêndios instantâneos, explosões e danos mecânicos na estrutura de concreto armado.
- Prejuízos financeiros e paralisação operacional: a queima em massa de servidores, centrais de interfone, elevadores e portões eletrônicos paralisa a operação de empresas e condomínios, gerando altos custos de reparo.
Além dos danos físicos, há implicações legais diretas para os responsáveis (síndicos, proprietários ou diretores):
- Recusa de indenização pelo seguro: seguradoras exigem o Laudo de SPDA válido e em conformidade com a NBR 5419 para efetuar o pagamento de indenizações por sinistros elétricos ou incêndios. A ausência de documentação ou laudo vencido anula o direito à cobertura.
- Responsabilização Civil e Criminal: caso ocorram acidentes ou perdas de vidas em uma edificação que negligenciou a instalação ou a devida manutenção do SPDA, o gestor ou proprietário responde judicialmente por negligência e omissão.
Garantir a conformidade do SPDA, portanto, vai muito além de proteger equipamentos eletrônicos: é uma medida indispensável para blindar juridicamente a gestão, preservar a validade das apólices de seguro e, acima de tudo, salvar vidas.
Prevenção técnica e proteção financeira andam juntas
Manter o SPDA atualizado conforme as exigências das normas e leis vigentes é o primeiro passo para garantir que a estrutura física do condomínio e a vida dos moradores estejam seguras. No entanto, a engenharia previne os acidentes, mas é a gestão inteligente que blinda o patrimônio contra os imprevistos que fogem do controle.
Mesmo com o sistema de para-raios em perfeito estado, a natureza é imprevisível e surtos na rede elétrica externa ainda podem acontecer. É nessa hora que o Seguro Condominial se torna o aliado indispensável do síndico.
Mais do que uma obrigação legal prevista no Código Civil, uma apólice de seguro bem dimensionada garante que, caso um imprevisto elétrico ocorra, o condomínio não precise arcar com prejuízos astronômicos do próprio bolso.
Lembre-se: para a seguradora indenizar o condomínio em caso de danos elétricos ou incêndios causados por raios, o laudo do SPDA deve estar rigorosamente em dia. Proteja seu condomínio em todas as frentes.
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Referências:
- https://www.portalsolar.com.br/dps
- https://www.weg.net/weghome/blog/tecnologia/dispositivos-de-protecao-contra-surtos-dps/
- https://lumenverum.com.br/quando-e-obrigatorio-spda.html
- https://lumenverum.com.br/nbr-5419-2015-vs-2026.html
- https://www.confea.org.br/midias/2023-11/Proposta%20CCEEE%20025-2023_%20Nota%20T%C3%A9cnica%20sobre%20atribui%C3%A7%C3%B5es%20profissionais.pdf
